AGOSTO DE 1914 – O COMEÇO DE FATO DO CURTO SÉCULO XX (1914-1990) – A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

No dia 04 de agosto de 1914,  os exércitos* do Império Alemão cruzavam a fronteira da neutra Bélgica, em direção à cidade de Liége, dando início ao conflito que, na minha opinião, considerado isoladamente, mais influenciou o tempo presente e a maneira como hoje vivemos.

*Em 1914, apesar de decorridos mais de 40 anos da unificação do país, o Império Alemão ainda não havia unificado os exércitos dos principais reinos que o formaram: Prússia, Baviera, Saxônia e Württemburg, havendo razoaável  grau de autonomia entre cada um desses exércitos.

Para quem gosta de História, e, mais especificamente, da História Militar, a mera pronúncia dos nomes Verdun, Marne, Somme, Passchendaele,  que batizam algumas das mais terríveis batalhas da 1ª Guerra Mundial, imediatamente evoca cenas de sofrimento humano incomensurável, de sacrifícios imensos e de heroísmo inúteis,.

Não é, para quem já gostava de ler sobre o assunto aos dez anos e hoje tem mais de 50, uma guerra tão distante assim: eu me lembro muito bem de ouvir falar, seja na minha rua, em Santa Teresa,  ou na rua de minha avó, em Porto Alegre, que certo vizinho idoso, imigrante italiano ou alemão, “havia lutado na Primeira Guerra” e recontavam-se as suas macabras histórias da luta nas trincheiras.

Já nos anos 90,  eu me recordo bastante de uma das melhores séries de televisão já exibidas na tv a cabo:  “BBC – People’s Century” – sobre o século XX. Ela focava nas experiências de pessoas ainda vivas sobre os grandes eventos do século. E, especificamente sobre a 1ª Guerra Mundial,  havia depoimentos de inúmeros veteranos.

Lembro de assistir um relato marcante, de um veterano francês, que contava que, após dias de bombardeio de obuses de imenso calibre, o solo  restava cravejado de enormes crateras, as quais, em virtude de vários ataques frontais quase suicidas, ficavam repletas de cadáveres boiando. Mas o que marcou especialmente aquele veterano foi quando, ao retirarem-se para as suas posições, após alguns dias de ocupação de poucas centenas de metros de território inimigo  obtido ao custo de baixas pavorosas, os soldados, para poderem atravessar as crateras inundadas pelas chuvas, tinham que pisar nos corpos dos companheiros caídos… frisando o velho combatente um detalhe macabro: eles procuravam sempre pisar nas costas dos cadáveres, e nunca nos corpos que estavam de barriga para cima, para que a perna não afundasse dentro do corpo do colega falecido… (uma cena análoga é retratada no recente filme “1917“).

Em suma, era o Horror,  que somente pode ser detalhado por quem o viveu. O mais dramático é que foi uma guerra travada com tecnologia do século XX,  mas por soldados que ainda tinham os seus corações e mentes no século XIX. Não é a toa que os poilus, como eram chamados os recrutas franceses, foram para a guerra em 1914 trajando calças vermelhas, casacos azuis marinhos com botões dourados e quepe vermelho (visibilidade que só ajudava os atiradores alemães). E, ao receber a sugestão, pouco antes da guerra, de que seria melhor utilizar cores mais discretas, como cinza ou verde oliva, o comandante do Exército teria dito:

“Mas as calças vermelhas SÃO a França!” (“Mais, les cullotes rouges sont La France!”).

Infelizmente, porém, o fato é que  a Grande Guerra foi uma guerra desejada pela população das grandes potências européias, o que é confirmado, além dos relatos históricos, pelas fotos das praças das principais capitais, totalmente lotadas pelo povo que, entusiasmado,  foi para a rua saudar e celebrar as declarações de guerra.

O entusiasmo da população era alimentado pelo nacionalismo e também pelo esquecimento…

De fato, em 1914 fazia mais de 40 anos –  situação incomum na história do continente – que nenhuma das grandes potências europeias lutava em solo europeu. O último  conflito havia sido a Guerra Franco-Prussiana, terminada em 1871, que sacramentou a unificação final dos vários reinos e principados germânicos em um Estado Nacional sob o controle da Prússia, formando o Império Alemão.

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(Proclamação do Império Alemão, em Versalhes, 1871, quadro de Anton Von Werner)

E a Guerra Franco-Prussiana, como frequentemente ocorre, não acarretou a resolução das diferenças que a causaram, mas lançou as primeiras sementes de um possível novo conflito, muito embora ele tenha ficado apenas latente durante muito tempo.

Revanchismo

Com efeito, a anexação das províncias da Alsácia e da Lorena pelo Império Alemão, regiões que a França governava já há cerca de 300 anos, mas que, como qualquer um que já tenha visitado o lugar pode facilmente perceber, têm marcada influência germânica, nunca foi devidamente digerida pelo orgulho nacional francês, e a recuperação daquelas províncias passou a ser, ora veladamente, ora expressamente, um tema importante da pauta política francesa, dando, inclusive, origem ao termo “revanchismo” (de “la revanche“).

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(Mapa do Império Alemão (domínios na Europa), entre 1871 e 1918,  por Andrew0921  )

O brilhante chanceler alemão Otto Von Bismarck havia, após 1871, adotado como objetivo principal da política européia alemã, a estratégia de isolar politicamente a França, mantendo boas relações com a, até então, eterna rival desta, a Inglaterra e mantendo um equilíbrio entre a rivalidade anglo-russa, aumentada em função da pressão exercida pelo Império Russo sobre a jóia da Coroa Britânica, a Índia ( e também sobre o Império Otomano), e a rivalidade entre a Rússia e o seu aliado alemão mais próximo, o Império Austro-Húngaro.

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Bismarck, até tentou, em 1873, reviver, de certa maneira, sob outra roupagem, a finada Santa Aliança,  entre a Prússia, a Áustria e  a Rússia, mediante a Liga dos Três Imperadores, aliando os três impérios.

Aliás, um fator desestabilizante naquele mundo europeu do final do século XIX, é que a Alemanha, que já era a economia industrial mais poderosa da Europa e a mais moderna, era governada pela nobreza prussiana (os Junkers), cujos conceitos políticos eram romântica e anacronicamente modelados por ideais feudais.

Além de ser a maior e mais moderna economia da Europa, a Alemanha era também, excetuada a Rússia, a nação mais populosa. Um político sagaz do período chegou a declarar, sarcasticamente, que:

“O problema da Europa é que há 20 milhões de alemães a mais…”

Para agravar os fatores de instabilidade, pouco tempo depois  da morte do hábil Kaiser Guilherme I,  que havia, juntamente com Bismarck, sido o arquiteto do novo Império Alemão, o governante autocrático da Alemanha passou a ser o seu neto, Guilherme II (o reinado do pai dele durou apenas 99 dias, devido um câncer).

O novo Kaiser não pode ser considerado o único culpado pela 1ª Guerra Mundial, mas é indubitável que, individualmente, nenhum líder jogou mais lenha na fogueira do futuro conflito do que ele….

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Romântico, vaidoso, exibicionista, emocionante instável, e necessitado de afirmação pessoal (para muitos decorrente do fato dele ter nascido com um braço atrofiado), os traços da personalidade do novo Kaiser acabaram influenciando a política externa do Império Alemão.

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Após demitir Bismarck, Guilherme II abandonou a prudente política externa do velho Chanceler (realpolitik), para adotar a sua propalada weltpolitik (política mundial), ou seja, uma política externa que visava tornar a Alemanha uma grande potência com influência global, ou, para usar as palavras do seu próprio ministro de relações exteriores:

“Assegurar à Alemanha um lugar ao sol”.

 

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A política externa de Guilherme II foi a principal responsável pelo Tratado de Aliança Franco-Russa, ao não renovar, em 1890, o secreto “Tratado de Resseguro” vigente com a Rússia desde 1887,  e firmado por iniciativa de Bismarck,, e no qual a Alemanha comprometia-se a manter-se neutra em caso de uma intervenção russa nos estreitos do Bósforo ou dos Dardanelos. Esse tratado, de certa forma, compensava a aliança firmada entre a Alemanha e a Áustria-Hungria, visando prevenir a Rússia de se aliar com a França.

Sintomaticamente, apenas um ano depois de Guilherme II deixar o Tratado de Resseguro caducar, França e Rússia iniciavam as negociações que culminariam, em 1892, com a assinatura do supracitado Tratado de Aliança Franco-Russa entre essas duas potências, dando início a uma série de alianças entre as potências rivais européias, os quais gerariam o tão falado “efeito dominó“, que acabou sendo uma das causas principais da conflagração européia em 1914, como veremos mais adiante.

O Plano Schlieffen

A maior consequência direta do Tratado de Aliança Militar Franco-Russa foi o condicionamento da estratégia de guerra alemã a uma solução para o grande problema que a aliança militar entre a França e a Rússia gerou: a Alemanha ter que travar uma guerra em dois fronts: ao oeste, contra a França e, ao Leste, contra a Rússia.

O Chefe do Estado-Maior imperial alemão, Alfred Von Schlieffen, dedicou o seu longo período no cargo, entre 1892 e 1906 tentando solucionar o problema da guerra em dois fronts, elaborando detalhados planos militares. Após diversas versões ao longo dos anos, chegou-se a um plano estratégico que passaria à História com o nome de “Plano Schlieffen“.

O Plano Schlieffen previa que, para conseguir derrotar a aliança franco-russa e vencer a guerra, a Alemanha deveria atacar a França e obter uma vitória decisiva contra o Exército Francês em tempo relativamente curto, enquanto que uma parte menor do efetivo militar manteria uma linha de defesa contra a Rússia, com o auxílio dos aliados austro-húngaros, permitindo que, assim que  neutralizada ameaça francesa, o grosso do Exército Alemão fosse, a seguir, deslocado para o Leste e derrotasse o Exército Czarista.

A lógica central do Plano Schlieffen , em resumo, derivava da expectativa de que o Império Russo teria dificuldades em mobilizar rapidamente a massa de seu enorme exército em tempo de montar uma ofensiva em larga escala contra o front oriental alemão, o que permitiria que a Alemanha atacasse a França com força quase total, antes que a superioridade numérica russa pudesse fazer a diferença (era expressão comum à época referir-se ao “rolo compressor russo“). Sobretudo porque percebia-se, na virada para o século XX, uma precariedade do sistema ferroviário russo, somada a ineficiência demonstrada pelo Exército Russo na Guerra Russo-Japonesa, em 1904, vencida pelo Japão.

Um detalhe crucial do Plano Schiefflen, e que o tornaria uma das causas diretas da 1ª Guerra, é que ele determinava que, para que o avanço das tropas alemãs fosse rápido o bastante para flanquear os exércitos franceses estacionados ao longo da fronteira nordeste da França, driblando a linha defensiva Verdun-Marne-Paris, acarretando uma batalha decisiva que colocaria uma ala do exército alemão ao oeste de Paris, seria necessário atravessar os territórios da Bélgica, Luxemburgo ou Holanda. Consequentemente, a estratégia alemã pré-guerra já trazia embutida a alta probabilidade de extensão do conflito para países neutros, e do envolvimento de outras nações européias.

Alemanha- economia avançada,  governo autocrático, ideais feudais

Que a aristocracia militar prussiana pudesse ter elaborado um plano militar como o Plano Schiefflen, com tamanhas repercussões geopolíticas e diplomáticas sem praticamente qualquer interferência civil, é uma prova estarrecedora do grau de militarização da sociedade alemã, e, igualmente, da exagerada ascendência da nobreza guerreira dos Junkers no país.

É  irônico, assim, constatar que a elite prussiana desprezou a importante lição do general prussiano Clausewitz :

“A guerra é a continuação da política por outros meios”

Aliás, o grau de militarização da sociedade alemã no período é esse ilustrada pela deliciosa história do “Capitão de Kopenick“:

Em 1906, um vigarista alemão chamado Wilhelm Voigt manufaturou um uniforme semelhante ao de capitão do Exército Prussiano, vestiu a farda e, ao cruzar com um sargento e quatro soldados, ordenou que os mesmos o acompanhassem, o que eles, condicionados pela disciplina prussiana, fizeram sem pestanejar. No caminho, eles encontraram mais seis soldados, que também se juntaram ao pelotão, agora comandado pelo “capitão” e seguiram todos até a Estação, onde pegaram um trem para a cidadezinha de Kopenick. Lá chegando, o “capitão” ocupou a prefeitura da cidade e deu ordens para que todas as saídas do prédio fossem guardadas.

Logo a seguir, o “capitão” convocou a polícia local e mandou-os “manter a ordem”, bem como determinou aos funcionários dos Correios e Telégrafos que as comunicações com Berlim estavam proibidas durante uma hora. Depois, Voigt mandou prender o prefeito e o tesoureiro da cidade, pelo motivo de contabilidade fraudulenta, e, incontinenti, apreendeu 4 mil marcos,  sem deixar de lavrar um “recibo”.

Finalmente, o “capitão” confiscou duas carruagens e mandou que os soldados levassem os “presos”, para Berlim. Ordens cumpridas, longe dos olhos dos outros, o “capitão” despiu sua farda, vestiu suas roupas civis e desapareceu, obviamente levando a quantia “apreendida”! Dez dias depois, ele foi preso.

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(Estátua de Wilhelm Voigt, fardado como “Capitão” de Koepenick, na prefeitura da cidade)

O espantoso, no episódio, é que ninguém, sejam os soldados, os policiais ou os funcionários públicos municipais, em nenhum momento questionou as ações, submetendo-se às ordens, sem pestanejar, pela mera visão de um uniforme de oficial prussiano, ainda que falso!

Já naqueles dias, a imprensa inglesa alardeou o bizarro episódio como prova da onipotência do militarismo no seio da sociedade alemã, muito instigada pelo Kaiser e, rivalidades à parte, eu sou da opinião de que a conclusão estava correta.

FATORES ESSENCIAIS PARA A ECLOSÃO DA 1ª GUERRA

Já falamos sobre as causas imediatas da 1ª Guerra Mundial, entretanto, achei que ficou faltando fazer alguma consideração sobre alguns eventos significativos ocorridos décadas antes e que influíram decisivamente para que as principais nações européias engalfinhassem-se em uma guerra tão mortífera, intestina, generalizada e destruidora que mais pode ser descrita como um abraço mortal cuja principal consequência, abstraído o massacre de uma geração inteira, foi o enfraquecimento político e econômico dessas mesmas potências, e o ocaso da nobreza que nelas dava as cartas desde a Idade Média.

Sem dúvida, as modificações ocorridas no campo político, com a Revolução Francesa  e econômico, pelas transformações no modo de produção e na sociedade, conhecidas como Revolução Industrial, foram fundamentais para que o conflito de agosto de 1914 tivesse tamanha dimensão.

Nacionalismo

Anteriormente ao século XVIII, os principais Estados europeus caracterizavam-se pela vinculação a uma casa real ou dinastia reinante que estabelecera uma supremacia sobre outras unidades políticas menores, igualmente governadas por outras famílias nobres, seja ao nível micro, como feudos, ou macro, como principados ou até mesmo reinos menores e, eventualmente, incorporando cidades-estado, comunas autônomas ou burgos, governados pela aristocracia, por uma classe mercantil ou, até mesmo, em alguns casos, democraticamente, pelo sufrágio dos cidadãos.

Embora houvesse muitas vezes a identificação por uma língua comum ou origem comum, o trinômio estado-nação-povo não era o que caracterizava as potências européias. Não é nosso propósito discorrer sobre o conceito de nacionalismo e distinguir entre nacionalismo liberal ou cívico e nacionalismo étnico. O fato é que, com a independência dos EUA e a Revolução Francesa, enfraquece-se a identificação entre Estado e Realeza, e a vinculação passa a ser entre Estado, Nação e Povo, o que atendeu perfeitamente aos interesses da nova classe dirigente – a burguesia.

A demolição dos diversos feudos e principados e dos privilégios dos seus governantes que complicavam e atravancavam os negócios e enfraqueciam a autoridade central foi uma consequência direta dos eventos supracitados. Marx, corretamente, já escreveu que a ascensão da burguesia e a revolução industrial eram pré-condições para a criação do Estado Nacional Moderno. É um processo que levou ao estabelecimento de uma autoridade central estatal que baseia e precisa basear a sua legitimidade pela defesa dos interesses de um povo, de preferência que fale a mesma língua, em um território. Daí, surge a necessidade da criação de elementos que forneçam uma identidade comum, e não apenas a língua, mas uma bandeira, um brasão, um hino.

Logrando a unidade política e autoridade indisputada em um território, e beneficiado pelo notável aumento da produtividade acarretado pela industrialização (e também da natalidade), ao Estado europeu do século XIX foi possível, através da tributação e do recrutamento, mobilizar e armar exércitos de tamanho e poder jamais vistos anteriormente.

As citadas mudanças políticas e econômicas, por sua vez, ao mesmo tempo geraram e foram impulsionadas por mudanças no campo filosófico, ideológico e científico.

O Nacionalismo do século XIX foi muito influenciado pela Teoria da Evolução de Darwin. Sem necessidade de fazer muita digressão, constata-se que os europeus oitocentistas cada vez mais passaram a entender que o postulado da “evolução das espécies pela sobrevivência do mais apto” também aplicava-se às nações, ou seja, a competição entre as espécies pela sobrevivência também ocorreria entre países, e, obviamente, no topo dessa “cadeia alimentar”, mas competindo entre si, estavam as grandes potências européias: Inglaterra, Alemanha, França, Rússia, Itália e Império Austro-Húngaro (Áustria-Hungria).

E vale observar que a “presa” mais gorda e mais fácil a ser disputada e devorada pela sua carne, naquele momento, era o atrasado e enfraquecido Império Otomano, então chamado de “homem doente da Europa“, já que este ainda controlava praticamente a totalidade dos Bálcãs (Inclusive, a primeira guerra de libertação nacionalista moderna da Europa foi a Guerra de Independência da Grécia, entre 1821 e 1832, contra os turcos. Como curiosidade, relate-se o fato de que os gregos, vitoriosos, chegaram a oferecer o trono da novel nação ao nosso D. Pedro I, que tinha abdicado do trono brasileiro em 1831).

Os territórios otomanos nos Bálcãs eram habitados, em sua maioria, por populações eslavas, que professavam a fé católica ortodoxa, da qual boa parte da opinião pública russa julgava-se defensora (Ideia presente, por exemplo, em várias passagens de alguns livros do imortal Dostoievski). Da mesma forma, a posição geográfica do Império Otomano afetava os interesses estratégicos da Rússia em ter uma saída livre do Mar Negro para o Mar Mediterrâneo e recuperar as perdas que sofrera na Guerra da Criméia (1853-1856).

O Pan-Eslavismo e o Tratado de Berlim

Da conjugação do crescimento do nacionalismo na Europa com a busca dos grupos étnicos eslavos por autonomia e independência surgiu o Pan-Eslavismo, movimento apoiado pelo Império Russo, que confrontava não apenas o domínio otomano na península dos Bálcãs (Sérvia, Bulgária, Romênia, Bósnia, Albânia,Macedônia), mas também os territórios detidos pelo Império Austro-Húngaro (Eslovênia, Croácia) na região,  e também a Europa Central (nas atuais República Tcheca, Eslováquia, Polônia, etc,  governados por uma dinastia germânica.

O choque entre os interesses do Império Russo e os do Império Otomano nos Bálcãs acarretou a Guerra Russo-Turca, de 1877-1878, em que os russos foram vitoriosos e resultou na independência da Romênia, da Sérvia e Montenegro e no reconhecimento da autonomia da Bulgária, ainda nominalmente submetida à Sublime Porta.

Alarmadas com o aumento da influência russa nos Bálcãs, as potências europeias resolveram por um freio nas ambições russas e limitar os ganhos que esta obteve em detrimento dos otomanos no Tratado de San Stefano, assinado com o Império Russo, e convocaram o Congresso de Berlim, realizado em 1878, três meses após, que resultou no Tratado de Berlim, do mesmo ano, no qual chancelou-se a maior parte das perdas otomanas, mas os ganhos russos foram limitados, mantida a anexação da Bessarábia, mas em outra parte cedidos territórios em favor da Romênia, a Bulgária teve a autonomia reconhecida, permanecendo contudo sob a suzerania otomana, e concedidas ao Império Austro-Húngaro  a Bósnia-Herzegovina e a região de Sanjak, na Sérvia e Montenegro, em detrimento deste novo país, cuja independência foi reconhecida. A Macedônia, que, no Tratado de San Stefano havia sido cedida à Bulgária, foi devolvida ao Império Otomano.

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(O temor de parte da opinião pública inglesa sobre a ameaça russa é muito bem retratado  nesse bem-humorado mapa da época)

Essa repartição dos territórios otomanos, na forma preconizada pelo Tratado de Berlim, ao invés de estabilizar a região, foi a causa de vários atritos entre os países envolvidos: em poucos anos, o novo status quo colocaria em rota de colisão a Sérvia e Montenegro e o Império Austro-Húngaro tendo em vista o crescente movimento nacionalista sérvio na Bósnia-Herzegovina; por sua vez, internamente, os russos consideraram-se humilhados e desiludidos com a Alemanha, sentimento que logo incentivaria a aliança com a França, bem como aumentando a hostilidade em relação à Áustria-Hungria, que foi a maior beneficiada em detrimento da Rússia na região balcânica, que, em poucos anos, se tornaria o Barril de Pólvora da Europa…

Imperialismo

Da conjugação entre o nacionalismo europeu e a Revolução Industrial, nasce o novo Imperialismo. A necessidade, real ou imaginada, de controlar diretamente mercados e matérias-primas, em um mundo onde, no espaço de uma geração, o aumento da produção, as novas descobertas, o aumento da população, etc., tornaram-se vertiginosos, em que os navios europeus singram todos os mares e suas redes de cabos telegráficos estendem-se pelo mundo todo e, finalmente, onde capitais espantosos são acumulados, aplicados e emprestados interna e externamente, tudo isso é percebido como uma manifestação da competição entre  as nações-predadoras em uma cadeia alimentar cujas presas são as regiões menos desenvolvidas do globo.

Cite-se como exemplo a “Corrida pela África“, de certa forma evocando a “Corrida do Ouro” na Califórnia, de 1849. Nessa grande partilha, França e Inglaterra abocanharam a maior parte do Continente Africano, sendo seguidas por Bélgica, Alemanha e Itália ( e até Portugal também interiorizou os seus domínios em Angola e Moçambique). Como resultado, lá pelo final do século XIX, somente Etiópia e Libéria continuavam independentes naquele desafortunado continente, sendo todos os demais colônias ou protetorados das potências européias (A Libéria sendo criada por iniciativa dos Estados Unidos, para receber ex-escravos norte-americanos retornados).

Retalhada a  África, a presa da vez, na virada do século, era a China, atolada em séculos de letargia e atraso sob os imperadores que se autodenominavam “Filhos do Céu”. Assim, ao longo da costa chinesa, várias cidades e enclaves, no final do século XIX estavam sendo cedidos ao Reino Unido, à França, e à Alemanha e, ainda – novidade do novo século-  agora às potências européias juntavam-se também os Estados Unidos e o Japão, todos em busca do seu “lugar ao Sol” no Império do Meio… . Aliás, há um filme excelente que ilustra muito bem o espírito do imperialismo europeu da época: 55 Dias em Pequim, de Nicholas Ray, com Charlton Heston. O filme, sobre a Revolta dos Boxers, levante anticolonialista chinês, em 1900, é, na verdade, uma ode ao colonialismo, e a cena inicial, das bandeiras sendo hasteadas no bairro das legações estrangeiras em Pequim, mostra melhor do que mil palavras o caldo de cultura do Imperialismo.

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(Cartoon francês de 1898 retratando a programada partilha da China. A Marianne, símbolo da República Francesa, pode ser vista apoiando-se nos ombros do Tzar da Rússia, Nicolau II)

Da mesma forma, as inovações tecnológicas e o aumento da produção no campo bélico também eram vertiginosos e  eles constituíam os dentes e as garras com os quais as potências mais fracas seriam capturadas e devoradas pelas mais fortes.

Assim, as nações européias, no período entre a Guerra Franco-prussiana e a Primeira Guerra Mundial (1870-1914) acumularam arsenais imensos, constantemente atualizados, devido aos frenéticos avanços tecnológicos, uma disputa que ficou conhecida como a “Corrida Armamentista“, uma das causas principais do conflito que ora estudamos.

Corrida Naval Anglo-Germânica

Nenhum episódio ilustra mais a influência da Corrida Armamentista como causa da Primeira Guerra Mundial do que a Corrida Naval Anglo-Germânica.

Com efeito, o maior exemplo da velocidade vertiginosa dos avanços tecnológicos bélicos ocorridos na 2ª metade do século XIX está no campo naval.

Para se ter um termo de comparação, hoje, muitas marinhas de guerra do mundo ainda têm comissionados navios fabricados na década de 50, como era o caso do nosso Porta-aviões São Paulo (navio-aeródromo A-12, descomissionado em 2018). De fato, um navio fabricado em 1960, portanto há 60 anos, devidamente atualizado, ainda é, com certeza, um meio naval efetivo (E o mesmo ocorre com caças e o outros aviões da aviação militar)

Pois bem,  agora note-se como a partir da 2ª metade do século XIX o avanço tecnológico torna-se vertiginoso:

Os navios que lutaram as guerras napoleônicas, por volta de 1805/1815, eram, basicamente, os mesmos navios que existiam em 1745, e esses mesmos navios continuaram a ser o esteio das armadas européias até 1845. Porém, a partir de 1845 muitos cascos de madeira foram convertidos para vapor. E esses mesmos navios convertidos, em 1850, já eram relíquias. Nessa mesma época, todos os canhões utilizados em 1845 caíram em desuso. Já os navios do início da década de 1850 do século XIX, com casco de madeira e roda de pás, e canhões com bala em formato de bola, ficaram ultrapassados já no final dessa mesma década. De fato, a partir de meados dos 1850, adotou-se a hélice, que se provou um propulsor mais eficiente. Por sua vez, os navios do início da década de 1860, com hélice e casco de ferro, canhões raiados de carga ogival pela boca, mas ainda com cascos com formato de veleiro e mastros, estavam totalmente obsoletos em 1870. Esses 10 anos, entre 1860 e 1879 marcam o apogeu dos navios do tipo monitor. Tais navios, porém, de calado muito baixo, não navegam bem em alto-mar, mas a partir deles, começou-se a adotar a torreta giratória, ao invés dos canhões dispostos em bateria, em escotilhas na lateral do casco. Posteriormente, em meados da década de 1880, adotam-se canhões de retrocarga e começa-se a abandonar os mastros de vela até mesmo como propulsão auxiliar. O design do casco, a disposição do armamento e, sobretudo, as caldeiras dos navios da década de 1880, porém, já são inteiramente ultrapassados em meados da década de 1890. Grande também, portanto, era a inovação no que tange a canhões e motores.

Em suma, a partir de 1845, a cada dez anos qualquer potência que pretendesse projetar efetivo poder no mar tinha que produzir ou adquirir navios inteiramente novos.

Mas a corrida naval que mais contribuiu para a eclosão da Guerra sem dúvida ocorreu entre o Reino Unido e o Império Alemão.O estadista Bismarck não fazia questão de uma marinha poderosa e, durante os anos que ele foi Chanceler do  Império, a Alemanha limitou-se a desenvolver uma força costeira, para patrulha. Mas, para atender aos clamores dos políticos porém, a Alemanha adquiriu algumas colônias na África, como por exemplo, Camarões. Togo, Chade, Ruanda, Burundi e Namíbia.

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(Império Colonial Alemão, em 1914, por ziegelbrenner

Sob o pretexto de defender estas colônias, o novo Kaiser Guilherme II, que havia demitido Bismarck, estimulou a promulgação de várias Leis Navais Alemãs, a partir de 1898, dispondo sobre a construção de uma Frota de Guerra de Alto-Mar. E essas leis eram expressas no objetivo da Marinha Imperial Alemã alcançar uma paridade, ao menos parcial, com a Real Marinha de Guerra Britânica.

Até a promulgação das Leis Navais Alemãs, os britânicos não tinham a percepção da Alemanha como um potencial inimigo, e toda estratégia militar britânica orientava-se no sentido de manter a supremacia dos mares, conquistada incontestavelmente no início do século XIX, após a Batalha de Trafalgar (1805), principalmente, em relação à França e, adicionalmente, em limitar o avanço da Rússia na saída do Mar Negro para o Mediterrâneo e no Oriente, nas fronteiras da importante colônia britânica da Índia.

Portanto, as leis navais do Kaiser, e a rápida construção de uma marinha poderosa que delas resultou, em função da enorme capacidade industrial alemã, acenderam bem mais do que uma luz de advertência em Londres…

A Corrida Naval Anglo-Germânica culminou com a Febre do Dreadnought.

Em 1906 a Inglaterra lançou o Encouraçado HMS Dreadnought (nome do navio). Esse navio foi a expressão das teorias navais desenvolvidas no final do século XIX, principalmente pelo almirante italiano Cuniberti, que pregavam um navio armado somente com canhões de grosso calibre, protegido por blindagem espessa, mas com propulsão capaz de desenvolver grande velocidade.

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Para muitos especialistas navais da época, o lançamento do Dreadnought teria “zerado” o placar da corrida naval, pois todos os navios anteriores seriam incapazes de enfrentá-lo em combate (o que era um exagero).

Como já observamos,  a virada do século XX era uma época em que o nacionalismo estava realmente impregnado na cultura popular, e os jornais e a opinião pública dos países passou a clamar pela produção ou aquisição de “dreadnoughts” (que acabou virando um substantivo para designar o tipo de novo encouraçado moderno). Observe-se que, sob uma certa ótica, os rivais da Inglaterra até ganharam um novo ânimo, pois a tradicional superioridade naval britânica, que até então era contada em dezenas ou centenas de navios, agora teoricamente estaria reduzida a apenas um! (Todavia, a capacidade de construção naval britânica ainda era superior a dos demais, mesmo à da Alemanha, maior economia da Europa por volta de 1913,  o que logo ficaria patente).

Os jornais da época ilustram que a opinião pública dos dois países acompanhava a corrida naval quase como hoje as torcidas de futebol fazem com as notícias sobre contratações de jogadores. Um slogan popular que ficou famoso na Inglaterra da época, sobre a aprovação da construção de oito dreadnoughts pelo Parlamento Britânico, foi:

“We want eight, and we won’t wait!” (“Queremos oito e não vamos esperar!”)

E não só os europeus, mas quase todas as nações independentes foram contaminadas pela febre do dreadnought. Podemos dizer que eles eram a bomba atômica da época, só que disponível para qualquer um que pudesse pagar…Assim, os EUA rapidamente resolveram construir navios similares. França, Itália, Áustria, Rússia e Japão também. E os jovens Estados Unidos do Brasil, que havia deixado a Marinha definhar após a Guerra do  Paraguai, resolveu recuperar o atraso e resolveu encomendar três dreadnoughts a estaleiros ingleses, batizados de: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

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(SMS Nassau, resposta da Alemanha ao Dreadnought, o primeiro encouraçado alemão deste tipo, em 1908)

Em 1910, o Brasil recebeu o Encouraçado Minas Gerais. Foi um fato que realmente abalou a imprensa mundial naquele tempo. O Minas Gerais era não apenas um dreadnought, mas, no ano em que ele foi lançado, ele era o mais formidável deles, ou seja, o encouraçado brasileiro era, nominalmente, o navio mais poderoso do mundo.

E, de fato, o navio era tão impressionante na época que, pouco sabem, inclusive os mineiros, que a canção “Oh, Minas Gerais“, o hino oficioso do Estado, (na verdade uma versão da valsa italiana “Viene Sur Mare“), foi efetivamente adaptada por Eduardo das Neves, em 1910, como uma homenagem, não ao Estado de Minas Gerais, mas ao encouraçado!

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(O encouraçado dreadnought brasileiro Minas Gerais, em 1910)

 

Sistema de Alianças

Assim, a Corrida Naval Anglo-Germânica e o receio que as atitudes cada vez mais belicosas do Kaiser, notadamente a simpatia e o apoio velado que este deu à Revolta dos Boêres, na África do Sul (Transvaal), fizeram com que os britânicos passassem uma borracha na histórica rivalidade com os franceses e assinassem, em 8 de abril de 1904, o Tratado da Entente Cordiale, na qual as duas potências democráticas (para os padrões da época) resolviam contenciosos antigos, especialmente no que se refere ao Egito e ao Canal de Suez (que foi uma iniciativa francesa da qual os britânicos de fato haviam se apossado) e reconheciam o direito da França intervir no Marrocos, entre outras pretensões coloniais ).

Embora o Tratado da Entente Cordiale não fosse um tratado de aliança militar, e jamais tenha previsto a obrigação da Grã-Bretanha agir militarmente em defesa da França, ele punha fim, formalmente, a uma política britânica de quase um século de distanciamento das disputas entre as potências continentais europeias, salvo  para manter um equilíbrio de poder ou defender interesses britânicos ameaçados, política essa que foi batizada de “Isolamento Esplêndido“.

De qualquer forma, a aproximação entre Reino Unido e França logo foi reforçada por vários incidentes em que a Alemanha se comportou de forma hostil contra os interesses do Reino Unido e da França, sobretudo dois incidentes no Marrocos, em 1905 e 1911,  nos quais a Alemanha interveio ameaçadoramente contra a iniciativa francesa para aumentar o seu controle daquele país,  tendo, em ambos, a Grã-Bretanha ficado do lado da França. No primeiro dos incidentes, o Kaiser chegou a fazer um espetacular desembarque nas ruas de Tânger, por onde desfilou por algumas horas triunfalmente montado em um cavalo branco.

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A Entente Cordiale em pouco tempo foi ampliada, ainda que informalmente, e também não integralmente (porque não havia a previsão de assistência militar por parte do Reino Unido), dando origem à Tríplice Entente, aliando a França e o Império Russo ao Império Britânico, antes da eclosão da Primeira Guerra.

A Tríplice Entente contrapunha-se à muito mais antiga e formal aliança militar constituída entre o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e a Itália, chamada Tríplice Aliança, a qual vinha sendo renovada desde 1882 (e duraria até 1915, quando a Itália resolveu entrar na guerra, mas  mudando de lado e aderindo à Tríplice Entente. Como se descobriria muito mais tarde, outro membro, que se manteve secreto, era a Romênia, que, temerosa da intervenção russa nos Balcãs, também aderiu à aliança em 1883, mas, da mesma maneira que a Itália, ela mudaria de lado depois da eclosão do conflito).

Como se sabe, o estopim da guerra foi o assassinato do herdeiro do trono austríaco, Arquiduque Francisco Ferdinando, por um nacionalista sérvio, em Sarajevo, em 28/06/1914, seguindo-se um ultimato humilhante da Áustria-Hungria à Sérvia, em 23/07, o qual não foi inteiramente atendido, razão pela qual a primeira declarou guerra à segunda (28/07), levando a Rússia a ordenar a mobilização de seu exército contra a Áustria em defesa da sua protegida (29/07), motivo pelo qual a Alemanha e Áustria também  mobilizaram seus exércitos (30/07).

Mobilização

Por que o ato de mobilizar os exércitos na Europa do início do século XX era tão grave, equivalendo, praticamente, a uma declaração de guerra?

A movimentação de tropas em quantidades jamais vistas na história da humanidade somente era possível mediante a utilização de toda a malha ferroviária dos países, e os planos de batalha envolviam a minuciosa coordenação de ordens de convocação dos soldados e reservistas,  a sua apresentação em estações previamente designadas, o seu embarque nas composições ferroviárias, o seu deslocamento em milhares de trens até um local de concentração, e o mesmo ocorrendo com descomunal quantidade de material bélico, tudo devendo ser executado e cronometrado o mais rápida e perfeitamente possível.

Assim, uma vez ordenada uma mobilização geral, era quase impossível voltar atrás, sob pena de desarticulação total, ainda que temporária, não apenas de todo o seu tranporte ferroviário, mas do próprio poderio militar do país.

Assim, a mobilização da Rússia praticamente impunha à Alemanha, ao menos de acordo com a lógica militar, a mobilização do seu exército  nos moldes ditados pelo Plano Schlieffen, o que por sua vez, obrigava a França a também mobilizar o seu exército, o mais rapidamente possível, para executar o seu próprio plano, que incluía o ataque à Alemanha.

Dentro dessa lógica, antes mesmo que qualquer tiro fosse disparado, a guerra tornara-se de fato inevitável a partir do momento em que os países envolvidos decidiam pela mobilização de seus exércitos.

Como curiosidade,  trago aqui, como evidência de que o quadro acima era um imperativo militar da época, a Caderneta de Serviço Militar do meu avô, de 1924 (quando a estratégia militar ainda seguia os padrões vigentes na Primeira Guerra). Nas fotos abaixo, pode-se ver que eram fornecidos aos reservistas passes para viagens de trem para serem usadas em caso de mobilização.

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Em 31/07/2014, a Alemanha deu um ultimato à aliada russa, a França, exigindo neutralidade e, como garantia da mesma, a rendição de fortalezas francesas, o que, obviamente, foi negado e imediatamente este ultimato foi seguido pela mobilização francesa no dia seguinte, 01/08, mesmo dia em que a Alemanha declarou guerra à Rússia e invadiu Luxemburgo. Finalmente, no dia 03/08/2014, o Império Alemão declarou guerra à França.

A seguir, obedecendo ao Plano Schlieffen, no dia 04/08/2014, a Alemanha invadiu a Bélgica, compelindo a Grã-Bretanha, que havia se comprometido publicamente a defender a integridade do país em anos anteriores, a declarar guerra ao Império Alemão. Por sua vez, após o fracasso da ofensiva francesa na Lorena, os exércitos alemães naquela província começavam a contra-atacar, com a esperança de contribuir para o pretendido cerco do Exército Francês que estava sendo executado pela ala direita do ataque alemão através da Bélgica,

Nesse momento, o avanço alemão ocorria muito próximo ao que o cronograma do Plano previa (hoje, a corrente majoritária é a de que esse cronograma era inexequível).

Enquanto isso, nos Fronts dos Balcãs e Oriental, nesses mesmos dias, os sérvios infligiam dura derrota ao Exército Austro-húngaro invasor, no Rio Jadar, na Batalha de Cer. Essa pouco lembrada batalha foi a primeira derrota das potências centrais na 1ª Guerra, e nela ocorreu também o primeiro combate aéreo do conflito, e provavelmente da História, quando o piloto de um avião de reconhecimento austríaco disparou seu revólver contra outro avião de reconhecimento sérvio, porém sem causar danos apreciáveis.

Em 21 de agosto, os austro-húngaros já tinham sido empurrados de volta para as suas fronteiras pelos sérvios, sofrendo 40 mil baixas. Por sua vez, o 2º Exército Imperial Russo, comandado pelo General Alexander Samsonov, em obediência à estratégia militar da Entente Cordiale (aliviar a pressão alemã contra a França) cruzou a fronteira da Prússia Oriental em 20 de agosto, dando seguimento à ofensiva do 1º Exército, no dia 17, que havia forçado as tropas alemãs a uma retirada em Gumbinnen e derrotado um contra-ataque capturando cerca de 6 mil soldados germânicos, colocando-se, assim, em uma posição teoricamente capaz de ameaçar a retaguarda do 8º Exército Alemão.

Apesar das cada vez mais evidentes deficiências logísticas dos russos, o comandante do 8º Exército, Maximillian Von Pritwittz entrou em pânico e ordenou uma retirada total para uma linha atrás do Rio Vístula, o que significava abandonar a Prússia Oriental aos russos, ameaçando a própria Berllim!. Felizmente, para os alemães, o Chefe do Estado-Maior alemão, Marechal Helmut Von Moltke, imediatamente destituiu Pritwittz e nomeou em seu lugar, o respeitado veterano da guerra franco-prussiana, Marechal Paul Von Hinderburg, que curtia uma merecida aposentadoria. Hindenburg, de sua parte, nomeou como chefe do seu estado-maior o general Erich Ludendorff, que se tornaria, a partir de 1916, o principal responsável por toda a máquina de guerra alemã.

A parceria dos dois generais: Hinderburg, o medalhão aristocrata, e Luddendorf, o cérebro militar de origem humilde, influenciaria não só todo o esforço de guerra alemão, mas ainda a política do país no pós-guerra. Vale dizer que ambos foram adeptos declarados da tese do “lebensraum” (espaço vital), supostamente necessário para o desenvolvimento econômico e proteção da Alemanha, uma ideia que viria a ser uma política oficial do Estado Nazista, mas que, em verdade, já seria, conforme comprovam documentos, implementada por Luddendorf ainda na 1ª Guerra, no Leste Europeu ( v. Hillgruber, Germany And The Two World Wars, 1981).

Após assumirem o comando, a  citada dupla de generais, cientes das deficiências russas, notadamente a falta de coordenação entre os dois exércitos russos e o grande espaço separando ambos, e também sabedores da capacidade superior de deslocamento alemã, em virtude da malha ferroviária maior e mais eficiente, permitindo aos germânicos concentrarem maior número de tropas e de artilharia em cada engajamento, não obstante a superioridade numérica global russa, rapidamente executaram a brilhante tática que os levou a esmagar o 2º Exército Russo na Batalha de Tannenberg, travada entre 26 e 30 de agosto de 1914, uma derrota tão acachapante que levou o general russo Samsonov a se suicidar no campo de batalha.

Em seguida, entre 07 e 14 de setembro de 1914. foi a vez dos exércitos alemães cuidarem do 1º Exército Russo, que avançava em direção a Konigsberg e que após vários combates desfavoráveis (Batalha dos Lagos Masurian) conseguiu a duras penas voltar para as fronteiras russas. A estimativa de baixas russas desta campanha é de 300 mil homens, contra 37 mil alemãs.

Estrategicamente, porém, há controvérsias acerca das consequências dessa Campanha. Muitos acham que a derrocada do avanço alemão, que parou no Rio Marne, no início de setembro de 1914,, em decorrência da Batalha do mesmo nome, e que resultou em vitória para os franceses, sepultando de vez o Plano Schlieffen, foi facilitada pelo fato de preciosas tropas terem sido deslocadas do front ocidental para conter o avanço russo.

Assim, é possível que o Exército Russo, embora fragorosamente derrotado, tenha contribuído, em 1914, para a vitória final da Tríplice Entente, em 1918 (embora ironicamente a Rússia tenha saído da Aliança em virtude da Revolução de 1917).

As “Batalhas da Fronteira”

Entre 21 e 23/08/2014, na região das cidades de Charleroi e Mons, os Franceses e Ingleses tentaram contra-atacar, mas sem obter sucesso. Assim, apesar das instruções do alto-comando de continuar contra-atacando, as tropas franceses recuaram para uma linha mais segura. Essa retirada, na época foi considerada uma derrota e o General Lanzerac, que a ordenou, foi crucificado pelo governo e opinião pública, mas na verdade, hoje acredita-se que ele tenha livrado a Entente de um desastre decisivo. Nesse meio termo,  a cidade de Louvain foi destruída, surgindo notícias de atrocidades alemãs cometidas contra civis belgas.  De fato, o Exército Alemão efetivamente resolveu retaliar a população civil devido à ação dos chamados “franc-tireurs” (franco-atiradores). Os aliados franco-britânicos, que ao longo da História sempre superaram os alemães em relações públicas, exploraram a propaganda negativa ao máximo.

Enquanto isso, no Front Oriental, como já vimos, a Rússia, que já havia sido severamente castigada em Tannenberg, seria derrotada, embora com menos intensidade, novamente em setembro, na Batalha dos Lagos Masurian.

O aguardado primeiro choque entre as armadas britânica e alemã

Em 28 de agosto ocorreu a primeira contenda armada naval, a Batalha de Helligoland Bight.

Uma força de 2 cruzadores leves e uma flotilha de 31 destroyers britânicos fez uma incursão próxima à base naval alemã de Heligoland, para atacar destroyers alemães que circulavam pela área. Essa força contava com a cobertura de um esquadrão comandado pelo Vice-Almirante David Beatty, que, futuramente, se tornaria o maior nome da Marinha Real na Guerra e que tinha à sua disposição 5 cruzadores de batalha. Ao engajarem-se contra os destroyers alemães, os cruzadores britânicos foram por sua vez engajados por cruzadores alemães, que se impuseram. Porém, Beatty, alertado por rádio das dificuldades dos navios, ordenou que seus 5 cruzadores se deslocassem para o local à toda força. Com a chegada da força superior britânica, que começou a atacar os navios alemães afundando alguns cruzadores e danificando outros, a batalha foi decidida em favor da Royal Navy. Um oficial britânico à bordo de um dos destroyers que se encontrava em situação difícil, cercado por navios alemães, assim descreveu a chegada do esquadrão comandado por Beatty:

“Em linha, bem na nossa frente, como se fosse uma adorável procissão de elefantes no meio de uma matilha de cães, vieram o Lion, o Queen Mary, o Princess Royal, o Invincible e o New Zealand…Como eles pareciam sólidos e totalmente semelhantes a um terremoto! Nós apontamos para eles o nosso último navio alemão agressor e nós fomos para o oeste e eles para o leste e, um pouco depois, escutamos o trovão dos canhões deles”.

Foi uma clara vitória da Royal Navy:  1200 baixas alemães contra apenas 75 britânicas, o que levou o Kaiser a ordenar que “ a frota deveria ficar na retaguarda e se abster de grandes perdas“, de certa forma deixando a iniciativa com os britânicos.

Todavia, em Helligoland, as estrelas da guerra naval, os dreadnoughts, não  chegaram a entrar em combate.

Dia 02 de setembro de 1914 tem início a primeira batalha crucial e de grande dramaticidade: a Primeira Batalha do Marne, que  merece uma postagem . Assim, paramos por aqui, por ora.

Publicado por Eduardo André

Carioca, filho e neto de gaúchos e amante da História.

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