WATERLOO

Em 18 de junho,  há 205 anos atrás, travou-se a Batalha de Waterloo.

Eu tive o privilégio de poder conhecer o campo de batalha de Waterloo, considerado um dos mais bem preservados que existem, exceto pela colina artificial comemorativa conhecida como Butte de Lion. O lugar fica nos subúrbios de Bruxelas, e hoje, como em 1815, é constituído de um conjunto de campos arados que fazem parte das mesmas fazendas que existiam na ocasião, e que continuam, como então, produzindo cereais!

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Dessa vez, vou poupar os leitores de narrativas detalhadas sobre a Batalha, que já devem ter tido a oportunidade de ler em livros e outros textos.

Mas é interessante recordar o conflito enfocando três personagens fundamentais que, a meu ver, recebem pouca atenção no noticiário da grande imprensa atual, ao menos nas postagens e artigos que eu li: o terreno, o clima e o Duque de Wellington, que fez uso magistral dos dois primeiros.

Compreende-se que Napoleão seja o centro das atenções quando se fala sobre a Batalha de Waterloo, afinal, não é a toa que a série de conflitos da qual esta batalha foi o fecho é chamada de “Guerras Napoleônicas”, já que além de ele ser, indiscutivelmente, um dos maiores generais de todos os tempos, à altura de um Alexandre, Aníbal ou César, Bonaparte influenciou toda a politica européia na 1ª metade do século XIX, consolidando a Revolução Francesa e espalhando através da Europa os ideais revolucionários. A figura de Napoleão, contudo, é controversa, e quem lê a imprensa anglofônica percebe que “o Corso” recebe um tratamento parecido como o que é dado a Hitler ou Stálin.

Mas vamos falar dos nossos temas…

Quando Napoleão escapou da Ilha de Elba e reassumiu o trono francês, imediatamente o Reino Unido, a Prússia a Rússia e a Áustria formaram a chamada Sétima Coalizão com o objetivo de derrotá-lo.

A estratégia de Napoleão para lidar com o  esperado ataque era simples: avançar o mais rápido possível e derrotar, isolada e sucessivamente, o exército britânico e o prussiano, que já estavam no território holandês ( a Bélgica ainda não existia), antes que ambos pudessem se unir e, depois,sendo bem sucedido, enfrentar os exércitos russo e austríaco, caso estes não fossem dissuadidos de combater devido a derrota dos primeiros.

A primeira manobra de Bonaparte foi parcialmente bem sucedida, pois, em 16//06/2015, ele conseguiu derrotar, ainda que não completamente, o exercito prussiano comandado pelo Marechal Blücher, em Ligny, obrigando os germânicos a se reagruparem mais ao Norte.

A derrota dos prussianos levou o comandante do exército britânico, o Duque de Wellington, a ordenar uma retirada de suas tropas para uma posição defensiva em Waterloo.

Sir Arthur Wellesley, criado Duque de Wellington em recompensa ao seu desempenho notável na campanha das Guerras Peninsulares, que expulsaram os franceses da Península Ibérica, era um irlandês de família protestante ( embora conste que ele não gostava de ser identificado como irlandês).

Curiosamente, Wellington, chegou a morar, na adolescência, em Bruxelas, pois não se adaptou ao aristocrático colégio de Eton. e isto também devido ao falecimento do seu pai, o que deixou a família em dificuldades financeiras.

Anos depois da Batalha, soube-se que Wellington havia estado em Waterloo, cerca de um ano antes, e comentado que aquele terreno era excepcional para uma posição defensiva.

Com efeito, os campos de Waterloo são levemente ondulados, embora se estendam por vários quilômetros. Assim, um exército atacante, embora se sinta confortável em avançar, não consegue ver as formações inimigas dispostas nas partes mais baixas do terreno. Além disso, essas ondulações protegem os defensores da barragem de artilharia, sendo que na época, normalmente as balas dos canhões iam rolando pelo terreno e atingindo a infantaria no chão.

Outro fato que beneficiou o “exército britânico” (vale observar que, dos 67 mil homens de Wellington, somente 25 mil eram britânicos, sendo os demais belgas, -holandeses e oriundos de principados alemães) foi a forte chuva que caiu na véspera da batalha.

Isso prejudicou os franceses duplamente: a sua superioridade em cavalaria não pôde ser explorada ao máximo, pois o terreno ficou lamacento e  isto não apenas prejudicou o avanço dos cavalos, mas, também, a “Grande Canhonada“, a tática de emprego massivo de artilharia com a qual Napoleão costumava iniciar os combates, pois as balas disparadas dos canhões franceses enterravam-se na lama, sem causar muitas baixas.

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Assim, linhas e mais linhas de cavaleiros franceses avançavam em direção às formações  inimigas, que, ocultas pelas ondulações do terreno, dispostas em formações defensivas em quadrado, com linhas de três homens com baionetas., não podiam ser vistas. Os cavalos, quando, subitamente, viam as baionetas da infantaria de Wellington aparecerem repentinamente em cima deles, estacavam. E os cavaleiros eram presa fácil da barragem de fogo cruzado.

Mesmo sofrendo essas desvantagens, a batalha oscilou muito, devido ao ardor e tenacidade dos homens de Napoleão, e somente a chegada das tropas prussianas de Blücher assegurou a vitória dos aliados, com a debandada dos franceses.

Consta que uma unidade da Guarda Imperial de Napoleão chegou a ter 96% de baixas e que outra, instada a se render, respondeu:

“La Garde meurt, elle ne se rend pas!” (A Guarda morre, ela não se rende!)

Napoleão (que segundo historiadores estava enfermo durante a Batalha, fato que explicaria muitos dos seus erros de julgamento e uma certa postura passiva durante o combate), quando se deu conta da derrota, deixou apressadamente o campo de batalha, chegando a ter que abandonar sua carruagem e galopar à toda em seu fiel cavalo branco, para não ser capturado.

Wellington e Blücher se encontraram finalmente na mesma noite. Segundo o general britânico, Blücher o saudava dizendo:Quelle affaire, acabando por deixar nele a impressão de que todo o conhecimento que o prussiano teria de francês se resumiria a essa frase…

Logo após a Batalha, o campo onde ela foi travada virou uma atração turística.

Em 1820 foi construída uma colina artificial (onde eu apareço nas fotos), que recebeu o nome de Butte de Lion, por causa da estátua de leão que a encima. Ela permite uma boa visão de todo o terreno, mas foi considerada, pelo próprio Wellington, segundo Victor Hugo, uma alteração indevida. Consta que o Duque teria dito:

“eles alteraram o MEU campo de batalha”

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Cerca de 40 mil homens, e dez mil cavalos, morreram em Waterloo.

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O desfecho da Batalha de Waterloo teve um impacto decisivo na geopolítica europeia e, em boa parte, estabeleceu um status quo no continente que perdurou até a Primeira Guerra Mundial:  A Inglaterra emergiu do conflito como a maior potência mundial; colocou-se um freio na exportação da Revolução Francesa (muito embora os seus ideais continuassem ecoando e algumas de suas conquistas nos campos político e legal continuarem a se espalhar pelo mundo); firmou-se a Santa Aliança entre a Prússia, o Império Austro=Húngaro e a Rússia, um bastião conservador e reacionário.

A redução da supremacia militar e política da França no continente europeu propiciaria, em alguma décadas, a unificação da Alemanha. O arranjo de interesses decorrente da derrota de Napoleão assegurou considerável estabilidade na Europa: o único conflito militar sério entre as potências europeias depois de Waterloo foi a Guerra da Criméia, entre 1853 e 1856 que foi travada no Mar Negro, bem distante da parte ocidental do continente, sem alterar muito a correlação de forças continental, exceto pelo enfraquecimento da Rússia. Depois disso, haveria a Guerra Franco-Prussiana, em 1870-1, que chancelou a  inevitável unificação da Alemanha.

Publicado por Eduardo André

Carioca, filho e neto de gaúchos e amante da História.

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